Quem foi a estilista Vera Arruda? Homenagem linda a essa guerreira e visionária


Por onde começar? Minha tia, minha amiga, minha referência de vida, de alegria, de trabalho, uma pessoa que mudou a minha e de quem conheceu, ela era linda, iluminada, especial e única, e não falo só pelo talento dela, mas pela personalidade.

São tantos momentos lindos que vivi com ela, me sinto feliz por ter tantas memórias e ter aprendido tanto! Me ensinou a enfrentar o mundo, não ter medo de nada e ter sempre amor ao próximo. Ela era uma das pessoas mais humildes que conheci, alegre em qualquer situação, até na doença, olhava o lado positivo de tudo, me tratava como adulta e não como criança, explicava as minhas responsabilidades, me dava conselhos, lembro de passar as minhas férias da escola na casa dela em São Paulo, várias anos seguidos, ia comprar tecidos, conhecia todo o processo criativo do desenvolvimento da coleção, ela me dava peças para criar, bijouterias para confeccionar, no atelier dela na Oscar Freire. Lembro também de andar de metrô, táxi, e fazer descobertas sozinha com o incentivo dela (eu tinha 12,13,14,15 anos), conheci lugares em São Paulo com ela incríveis que nunca vou esquecer, como a Galeria Ouro Fino, que ela chamava de galeria do rock, só com lojas desse universo.

Lembro dela quase todos os dias da minha vida, às vezes choro de emoção e de alegria com as lembranças que tenho dela. Sei que onde quer que ela esteja está me acompanhando e torcendo por mim, éramos muito próximas.

Por isso que gosto tanto de moda, acho que agora dá para entender de onde vem tudo isso, certo?

HISTÓRIA DA CARREIRA

Deixo aqui textos que encontrei na internet que contam um pouco do percurso dela e um vídeo emocionante que foi uma homenagem de amigos e familiares que fala um pouco sobre a vida da minha tia, a estilista Vera Arruda.

Desde criança, ela própria desenhava suas roupas e as de suas amigas. Vera aprendeu com a avó a desenhar suas roupas e contratar costureiras-modistas para executá-las. Foi artista plástica e vitrinista até que resolveu se mudar para São Paulo para conquistar os seus sonhos em 1997. Em 1998, resolveu participar do Phytoervas Fashion Awards, evento deu origem ao São Paulo Fashion Week, e foi escolhida a melhor estilista do evento naquele ano.

Logo em seguida foi convidada para estudar no Studio Berçot, em Paris, e começou a desenvolver acessórios para grifes como Ellus e Rosa Chá e roupas para diversas figuras públicas. Sua maior incentivadora era Adriane Galisteu. Vestiu ainda, Xuxa, Adriana Galisteu, Sandy, Astrid Fontenelle, Margareth Menezes, Eliana, entre outros. A estilista desenvolvia um trabalho tipicamente brasileiro com mistura de tecidos totalmente irreverentes, bordados, pedrarias e flores. Nos anos 90, foi a primeira estilista a resgatar o nacionalismo criando um vestido de franjas com a bandeira do Brasil. O Vestido Brasil – Feito em linha de seda amarrada à tela de Filé com nós de tapeçaria foi criado para o desfile Phytoervas Fashion Alwards de 1998. Sua imagem foi usada na abertura do evento Semana Brasileira de Moda em Nova York e foi eleito a melhor peça de moda de 1998. Fez também um trabalho que recebeu destaque especial, o Vestido Gravata (1996) – executado com gravatas do pai (Silvio Arruda), do avô (Gastão Leão Rêgo) e do também alagoano Aurélio Buarque de Holanda, além de outras adquiridas em feiras de antiguidade.

O trabalho de Vera tem reconhecimento até os dias de hoje. “Aquelas sandálias vermelhas me perturbavam”, dizia Vera Arruda sobre as sandálias com meias de lurex de Sonia Braga, na novela Dancing Days. No imaginário da estilista de 38 anos, nascida em Palmeira dos Índios, Alagoas, todas as cores e contas seriam permitidas. Vera inspirava-se nas cores. “Elas me comovem, dão luz a minha vida. A estética sofrida e, ao mesmo tempo, tão forte do povo nordestino dá a alma da minha criação, mas não sou regional, desejo apenas uma tradução deste imaginário”, dizia Vera. Seu filme não foi um curta-metragem, como dizia modesta. Vera foi grande, generosa desde o início. Generosa na explosão das cores em seu trabalho, generosa na perfeição das tramas, generosa em oferecer uma imagem sempre tão rebuscada e criteriosa. “Quero o diferencial, o pessoal, sempre”, dizia.

Para Paulo Borges, criador do São Paulo Fashion Week, ela foi uma das pioneiras no resgate da identidade nacional, sem ser, porém, regionalista. A estilista alagoana foi precursora desta onda folk que invadiu o imaginário dos novos criadores. Não tinha medo de ser menina, mulher, romântica, de beirar o kitch, de mostrar feminilidade e de ser bem humorada. “Há um perfume doce no ar”, dizia ela. Para o jornalista Jackson Araújo, Vera preconizou o humor e uma certa inocência na moda. “Seu estilo era otimista desde o início. E isto é tudo que a moda contemporânea respira”, avalia.

Seu universo era rebuscado. Em cada peça Vera contava uma história, devota ferrenha de Iemanjá, traduzia em seu trabalho suas crenças, vivia uma emoção. “Nos vestimos para emocionar, a nós e a quem nos vê”, dizia. Suas peças eram a tradução desta emoção feminina e disto ela não tinha medo, e sim, orgulhava-se desta característica, da qual fazem parte outros importantes nomes como Adriana Barra, As Carmelitas, Isabela Capeto. “Eu sempre me identifiquei com este universo alegre de Vera, o uso que ela fazia das flores era sensacional”, confessa Adriana Barra.

Flores, bordados, miçangas, fitas, tules e tudo mais que o imaginário permite lhe servia de matéria prima. E deles surgiu a sua coleção lançada no cenário nacional em 1998, na edição do Phytoervas Fashion. Vera foi aplaudida de pé. De lá pra cá, em apenas seis anos, virou peça imprescindível no guarda-roupa de celebridades como Adriane Galisteu, Ivete Sangalo, Margareth Menezes, Carlinhos Brown, Luana Piovani e Paula Lavigne – que vestiu um vestido de Vera na cerimônia de entrega do Oscar.

“Vera morreu sem ter dado conta do significado que teve para a moda brasileira”, disse o amigo André Lima. Mas, certamente, o teve. Vera era sábia e obstinada. Perdeu o mercado da moda brasileira, exatamente no momento em que se descobre importante na sua essência, no momento da valorização do pessoal, do intransferível. Vera Arruda foi assim e ajudou a escrever a história de uma moda feminina com viés brasileiro.

A estilista faleceu no dia 30 de julho de 2004, aos 38 anos. Seu nome está imortalizado em Maceió, que reconheceu o seu talento e criou um corredor cultural, numa imensa praça, onde são expostos permanentemente a história de alagoanos ilustres e ícones da cultura local. A homenagem a estilista alagoana foi aceita por unanimidade pela classe artística. ”